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Maaliskuu 1/2001

Toni Eerola

Fluxos de lama, erupções vulcânicas e/ou glaciação há 600 milhões de anos em Lavras do Sul, RS? Pesquisas geológicas no Sul do Brasil
 

Summary: Mud-flows, volcanic eruptions and/or glaciation in the Lavras do Sul 600 million years ago? Geological research in Southern Brazil.

The Neoproterozoic (ca. 1000-540 Ma) events and climate changes have received a lot of attention in recent years and Neoproterozoic glacial deposits have been found in all continents. The number of glaciations and paleolatitudes of these deposits are a matter of intense debate, which still forms one of the most significant mysteries in Earth history.

Some years ago the author discovered the first supposedly Neoproterozoic-Cambrian glacial deposit in southern Brazil, namely in the Lavras do Sul region, Rio Grande do Sul State. The Passo da Areia Sequence (~ 600 Ma) consists of conglomerates, immature sandstones, rhythmic shales, probable dropstones and diamictites. The sequence overlay the volcanic Hilário Formation and most of the clastic material is of volcanic origin. In this aspect the sequence is similar to the coeval glacial Gaskiers Formation in Newfoundland, Canada. This association with volcanics have led some Brazilian geologists to advocate a merely volcaniclastic rather than glaciogenic origin for the whole sequence, due to fact that many other processes (e.g. volcanic bombs, turbidites, lahars, mud-flows, landslides, rockfalls) can generate deposits resembling glacial sediments. This problem of correct interpretation has surrounded many other classic Neoproterozoic glacial deposits of the world (e.g. Bigganjargga Formation in northern Norway). 

However, if there is a glacial deposit, it allows correlations with other similar and coeval glacial deposits in Argentina, Uruguay, Mato Grosso (Brazil), Namibia and Laurentia, which were all located close to southern Brazil in Neoproterozoic-Cambrian times. In continental palaeoreconstructions of the supercontinent Rodinia, these deposits were probably connected to the continuous zone of glacial sequences of Scotland, Scandinavia, Greenland, Russia, Antarctica and Australia. This connection forms the "Varangerian-Lower Sinian Glacial Zone of Rodinia", based on ages of the deposits. Since many of the palaeomagnetic reconstructions locate glacial deposits even in equatorial zone, it has been assumed that the Earth was wholly covered by glaciers, forming the so called "snowball planet". The change to a warm climate and the accompanying evolutionary explosion in the Cambrian were probably due to greenhouse effect. 

Since 1994, the author participated in many International Geological Correlation Programs (IGCP) and his works has been presented in international conferences and published in Finnish and international journals. The project was interrupted in 1997, but will be probably reactivated in the near future. This paper reports, in Portuguese language, the progress of investigations in a popular manner and is a contribution to the IGCP Projects 303, 319, 320, 366, 368, 386 and 440.


Introdução

Um mundo com inverno prolongado, de frio intenso com ventos polares e coberto por geleiras espessas como um bloco de gelo, ou melhor, uma bola de neve. Este é um mundo mergulhado em uma glaciação.

Nos países do Hemisfério Norte, como a Finlândia, podemos ver os rastros de uma glaciação que terminou há 10.000 anos atrás. As geleiras espessas poliram e estriaram a superfície das rochas, transportaram blocos errantes por quilômetros e depositaram sedimentos glaciais, características proeminentes da geomorfologia Nórdica. Geologicamente a última glaciação terminou recentemente. Durante a sua história, a Terra experimentou, porém, vários períodos glaciais. O mais antigo conhecido ocorreu há bilhões de anos atrás. Várias glaciações tem deixado o seu rastro também no Brasil. Uma destas, ocorrida há aproximadamente 600 Ma (milhões de anos) até nas regiões equatorias, está envolta em muitos mistérios – e com muitas semelhanças com os tempos atuais. 

O presente artigo, de natureza acessível aos leigos, é um relato pessoal, um "diário" de pesquisa geológica relacionado à suspeita de ocorrência de depósitos glaciais com idade de 600 Ma na região de Lavras do Sul, Rio Grande do Sul, sul do Brasil. Lavras do Sul é situado a 300 km a SW de Porto Alegre, capital do estado. No final do texto encontra-se a lista de referências publicadas pelo projeto, assim como outros artigos de cunho popular e científico, que são úteis aos que querem se aprofundar no assunto. O artigo é uma contribuição aos Projetos IGCP (International Geological Correlation Program) 303, 319, 320, 366, 368, 386 and 440.

Mapeamento geológico em Lavras do Sul, RS, Brasil 

Em março de 1991 estive nos trabalhos de mapeamento e pesquisa geológica do Projeto Lavras-Taboleiros da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) na região de Lavras do Sul, junto ao colega Gustavo Kraemer. Na margem sul do Rio Camaquã Chico, na extremidade leste da folha de Lavras do Sul, achamos, no calor intenso do pampa, uma seqüência sedimentar com diamictitos, ou seja, clastos angulosos de diversos tamanhos em barro petrificado. Isto relembra ao tilito, rocha sedimentar depositada por geleiras. A idade desta seqüência em Lavras do Sul é, entretanto, aproximadamente 600 milhões de anos. 
 
Fig. 1. Vista parcial da Seqüência Passo da Areia em Lavras do Sul, sul do Brasil. De baixo para cima: diamictitos (cobertos pela água), camadas de arenito e pelito intercaladas e finalmente, um espesso pacote de pelitos acamadados. 

Fig. 1. Partial view on the Passo da Areia Sequence in Lavras do Sul, Southern Brazil. From the base to the top: diamictites (covered by water), alternation of sandstone and mudstone layers and finally, a thick sequence of finely layered mudstones.
 

O achado não teria nada de estranho, se este tipo de depósito fosse conhecido no Rio Grande do Sul anteriormente. Ninguem, porém, relatou anteriormente a ocorrência de influência glacial desta idade no Estado. Nós também não o fizemos, pois é bastante conhecido que outros processos, como os fluxos de lama, turbiditos, impactos de meteoritos, etc, podem gerar depósitos similares. Interpretamos a origem do depósito como tendo sido gerado por um fluxo de lama. Nesta época consideramos a seqüência como pertencente à Formação Guaritas, de acordo com os mapas geológicos antigos. 

Retorno à Finlândia

Em 1992 retornei à Finlândia após 13 anos vividos no Brasil. As rochas de Lavras do Sul, porém, continuaram nos meus pensamentos. Junto ao serviço militar, preparava um artigo sobre a seqüência de Lavras do Sul, desconsiderando a possibilidade de influência glacial. 

No verão finlandês de 1993 estive trabalhando em operações de geologia marinha do Geological Survey of Finland (GSF) no Golfo da Finlândia, onde coincidentemente mapeamos depósitos sedimentares glaciais e pós-glaciais Quaternários. No tempo livre, geralmente à noite, lia um livro escrito pelo prof. M. Eronen, do Departamento de Geologia da Universidade de Helsinki. Este livro excelente descreve a história geológica da Terra do ponto de vista das mudanças climáticas. Durante a história da Terra, várias glaciações cobriram a Terra antes da última, terminada há 10.000 anos no Hemisfério Norte. O mais antigo destas ocorreu no período Arqueano, há aproximadamente 2,7 bilhões de anos atrás na África do Sul. Após disto, há 2,3 bilhões de anos atrás, no Proterozóico Inferior, as geleiras cobriram a América do Norte e Fennoscándia. As próximas glaciações ocorreram no Neoproterozóico, há 1000-540 Ma. Neste período, pelo menos três glaciações são reconhecidas: Congo Inferior (900-800 Ma), Sturtiana (750-700 Ma) e Varangeriana (650-600 Ma). Suspeita-se ainda de uma quarta, a Siniana Inferior (550 Ma). Traços de geleiras destas idade são encontrados em todos os continentes, incluindo a América do Sul (Argentina, Uruguai, Bolívia e Brasil). No Brasil, os vestígios destes ocorrem na Bahia, Minas Gerais, Mato Grosso e Paraná. A idade dos depósitos varia entre 900 a 600 milhões de anos. No Brasil ocorreram também glaciações no Ordoviciano-Siluriano e Permiano-Carbonífero. 

Vide a tabela dos períodos geológicos: http://www.ucmp.berkeley.edu/help/timeform.html e as glaciaçõoes no passado: http://www.homepage.montana.edu/~geol445/hyperglac/time2/

Depósitos glaciais Neoproterozóicos são encontrados também em muitos países da África, incluindo a Namíbia, onde a idade de vários depósitos glaciais varia entre 700-550 Ma. A África e América do Sul uniram-se nesta época, formando parte do supercontinente Rodinia, do qual faziam parte também a Ásia, América do Norte, Escandinávia, Antártida, Austrália e Índia. O sul do Brasil estava junto à Namíbia. 
 
 
Fig. 2. Reconstrução do supercontinente Rodinia há 600 milhões de anos. Os triângulos representam depósitos glaciais de mesma idade (Varangerianos), que formam uma faixa contínua desde a Escandinávia até à Austrália. "?" significam supostos depósitos de influência glacial, não confirmados, incluindo sul do Brasil e Uruguai.

Fig. 2. Reconstruction of the supercontinent of Rodinia at 600 million years ago. The triangles represent coeval glacial deposits (Varangerian), which forms a continuous belt from the Scandinavia to Australia. "?" means deposit with supposed but not confirmed glacial influence, including Southern Brazil and Uruguay.
 

Estava lendo o livro na penumbra da noite luminosa do verão finlandês, quase dormindo ao ritmo suave das ondas que balançavam o barco do GSF. O que li, porém, espantou o sono. Encontrei um tema muito interessante para ser investigado: se estes depósitos glaciais existem na Namíbia, por que não existiriam também no Rio Grande do Sul, se estes estavam próximos? Durante uma glaciação, as geleiras cobrem vastas áreas e no Rio Grande do Sul tem formações sedimentares da mesma idade. Os meus pensamentos voltaram à região de Lavras do Sul. Será que aquele depósito encontrado não seria glacial? 

No próximo dia telefonei ao autor do livro e perguntei dados e bibliografia. Ele me aconselhou muito amistosamente e os primeiros contatos com o mundo fascinante das glaciações Neoproterozóicas ocorreram com o livro de P. Cloud "Oasis in the space" e artigo de M. Hambrey "The secrets of the tropical ice ages". A partir destes era fácil prosseguir. Lendo a bibliografia constatei que teve um outro finlandês que já trabalhou com o assunto na Namíbia e Austrália, o mundialmente conhecido Prof. Emérito K. Rankama, da Universidade de Helsinki.

Mudanças climáticas Neoproterozóicas-Cambrianas

As glaciações Neoproterozóicas são um dos maiores mistérios da história da Terra. Através de pesquisas paleomagnéticas se chegou à conclusão de que existiram geleiras também nas proximidades do equador. Por comparação, a glaciação Quaternária afetou somente áreas circumpolares. A extensão global dos depósitos glaciais, até nas proximidades do equador, levou recentemente pesquisadores como J. Kirschvink e P. Hoffman e seus colaboradores a defenderem a idéia de um período global de frio intenso, quando então a Terra teria formado um "planeta bola de neve" (snowball planet), ou seja, totalmente coberto por geleiras. O evento foi de tal dramaticidade, que a vida foi quase extinta. (vide http://www.sciam.com/2000/0100issue/0100hoffman.html). 

Em relação ao Neoproterozóico existem outros fatos desconcertantes. Os vestígios de clima frio são geralmente sucedidos por depósitos formados em clima tropical, como carbonatos, formações salinas, dunas de desertos, etc. Além disto, imediatamente após o fim do Neoproterozóico, na era Cambriana, a vida começa a florescer de forma abundante e diversificada, pela primeira vez na história geológica. A movimentação das placas continentais era também mais rápida do que hoje e o período assistiu à formação e fragmentação do supercontinente Rodinia. Algumas pesquisas indicam que o sul do Brasil se situava nas proximidades do pólo sul. 

Os pesquisadores tem levantado inúmeras hipóteses acerca das causas para a ocorrência de mudanças climáticas intensas desta época, como, por exemplo, astronômicas, tectônicas, climáticas, etc. São o motivo de grande disputa.

Continuação das pesquisas

Em 1994 fui contratado pela Divisão Internacional do GSF. As minhas funções foram, entre outros, manter contatos com instituições geocientíficas brasileiras, marketing internacional do GSF e promoção de projetos. Continuei, ao mesmo tempo, a pesquisa do Neoproterozóico e da região de Lavras do Sul na forma de uma atividade paralela. 

Retorno ao Brasil 

Em agosto de 1994 foi realizado em Recife o 14° Congresso Internacional de Sedimentologia. Participei do evento devido à função que exercia e o tema do estudo iniciado. Apresentei as suspeitas de uma possível influência glacial Neoproterozóica em Lavras do Sul. Encontrei muitos pesquisadores que tem trabalhado com os depósitos sedimentares do Rio Grande do Sul e glaciações Neoproterozóicas em outras regiões do Brasil. A suspeita teve uma recepção entusiasmada. Foi me prometida infra-estrutura e ajuda de universidades gaúchas quando fosse ao Estado. Alguns, é claro, também apresentaram desconfiança, porque nenhum pesquisador mais reconhecido tinha feito tais considerações anteriormente. Perguntaram-me se não se tratava de depósito glacial Permo-Carbonífero. Contra isto, porém, tem se muito fortes argumentos. Os pesquisadores da USP e UFRGS contaram sobre suspeitas anteriores de depósitos glaciais Neoproterozóicos no Rio Grande do Sul, não-publicados. Estes tem sido informalmente sugeridos desde a década de 1960 até recentemente. Algumas formações um pouco mais antigos, ca. 700 Ma, tem sido consideradas glaciais por P.R. Bocchi. Ninguém, porém, tinha se aprofundado no assunto, a não ser na região de Caçapava do Sul, onde o grupo de pesquisa do R. Fragoso-Cesar da USP tem recentemente procurado vestígios de influência glacial, sem, no entanto, encontrá-los. 

Na Seqüência Passo da Areia, Lavras do Sul, Rio Grande do Sul

Na mesma viagem fui também ao Rio Grande do Sul, onde visitei a região de Lavras do Sul com o amigo e colega Mauro R. Reis. Além dos diamictitos já mencionados, encontramos agora também outros vestígios sugestivos de ambiente glacial. Estes são os chamados "dropstones", ou seja, clastos imersos em camadas rítmicas de sedimentos finos. Os dropstones são rochas caídas no fundo de um lago quando um ice-berg degela. Eis um apoio formidável à minha suspeita, apesar de que formações similares podem ser geradas por outros processos. Mas quando se considera o conjunto da sucessão litológica de diamictitos e dropstones, tem se uma formação muito similar ao depósitos com influência glacial. 
 
Fig.3. Suposto "dropstone" nos pelitos acamadados da Seqüência Passo da Areia, Lavras do Sul. Na seqüência são encontrados vários clastos imersos em camadas rítmicas de sedimentos finos (antigos fundos de lagos). 

Fig. 3. Supposed "dropstone" in mudstone layers in the Passo da Areia Sequence in Lavras do Sul, Southern Brazil. There are found many clasts immersed in rhytmically layered fine-grained sediments (bottoms of ancient lakes) in the sequence.
 

A formação com a suspeita glacial foi denominado de "Seqüência Passo da Areia", conforme o local mais próximo da descoberta. Fotos foram tirados para apresentações e publicações futuras. Infelizmente a verificação da extensão da seqüência e procura de mais evidências não foi possível devido ao escassez de tempo. Estava, entretanto, muito satisfeito com os resultados da visita. 

Ao visitar a superintendência do Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e a sede do comitê organizador do 38° Congresso Brasileiro de Geologia em Florianópolis, estado de Santa Catarina, contei sobre as evidëncias encontradas em Lavras do Sul. Devido à natureza polêmica do tema, eles e a Sociedade Brasileira de Geologia me convidaram para participar do referido evento em setembro no Balneário de Camboriú, Santa Catarina. 

Novamente na Finlândia

Retornando à Finlândia, revelei as fotos tiradas em Lavras do Sul e mostrei-las a especialistas de sedimentologia e geologia Quaternária do SGF, que tem pesquisado glaciações de várias idades. Estes estavam unânimes de que a seqûencia de Lavras do Sul relembrava muito à uma seqüência glacial. Mostrei as fotos também ao K. Rankama, que concordou e me aconselhou a pesquisar o assunto a fundo, pois a ele estranhava o fato de não se ter encontrado depósitos glaciais Neoproterozóicos no sul do Brasil, já que na Namíbia são tão abundantes. Lamentavelmente K. Rankama faleceu no início de 1995. 

38° Congresso Brasileiro de Geologia, Camboriú, Santa Catarina

A apresentação sobre a possível glaciação Neoproterozóica no sul do Brasil e suas possíveis correlações com a Namíbia no 38° Congresso Brasileiro de Geologia ocorreu em um simpósio sobre o tema. Após a apresentação, era a vez das perguntas e comentários. Esperei protestos e questões difíceis. Recebi, porém, somente retorno positivo e informações sobre suspeitas semelhantes de Uruguai e outros locais do Rio Grande do Sul. 

Publicações e interpretações diferentes

Os próximos passos na pesquisa eram a publicação da descoberta e da suspeita no Current Research 1993-1994 da SGF em 1995 e a participação no congresso internacional "Past, Present and Future Climate" em agosto do mesmo ano em Helsinki. Nesta época fui aconselhado a realizar o doutorado em torno do tema, devido, entre outros, pela sua importância internacional. Iniciei os estudos de pós-graduação em 1995 na Universidade de Helsinki. 

Norte da Noruega

Em 1995, o prof. K. Laajoki da Universidade de Oulu (Finlândia) soube do meu interesse e me convidou à uma excursão do seu instituto para norte da Noruega, incluindo a região de Varanger, onde se encontram os clássicos tilitos Neoproterozóicos de Bigganjargga. A sensação de visitar o primeiro lugar do mundo onde um depósito glacial Neoproterozóico foi descrito por Dr. Reusch, foi imemorável. O afloramento é um "santuário" aos geólogos e é um dos locais da lista de herança geológica da UNESCO e protegido pela legislação da Noruega. 

No próximo ano retornei ainda ao mesmo local com os geólogos quaternários H. Hirvas e K. Nenonen do SGF. O objetivo desta visita era de responder à tese dos geólogos noruegeses P. Jensen e E. Wulff-Pedersen, de que a formação em questão não é de origem glacial e sim, ocasionado por um fluxo de lama. As pesquisas feitas na ocasião estão ainda para serem publicadas.

Mais publicações

Em 1996 publiquei um artigo sobre as mudanças climáticas na transição Neoproterozóico-Cambriano na revista Geologi, da Geological Society of Finland e no mesmo ano apresentei resultados de investigações no Nordic Geological Winter Meeting em Turku, Finlândia e no encontro do IGCP-368 sobre o Neoproterozóico em Ekaterinburgo na Rússia. No mesmo ano associei-me a vários projetos da International Geological Correlation Program, que se relacionavam com os eventos Neoproterozóico-Cambrianos. Iniciei também uma intensa correspondência com outros pesquisadores de vários países. Como conseqüência destas atividades, os pesquisadores A. Zhuravlev e R. Riding fizeram convite para escrever um capítulo sobre as mudanças climáticas da transição Neoproterozóico-Cambriano ao livro 

"Ecology of the Cambrian radiation", editado por eles, que trata de causas que levaram à explosão evolutiva ocorrida no período Cambriano. Entreguei o manuscrito revisado e corrigido no início de 1997. O livro foi publicado anos depois. A minha idéia, baseada nas reconstruções do supercontinente Rodinia de I. Dalziel e a distribuição de depósitos glaciais de G. Young, era que os depósitos glaciais com a idade de ca. 600-550 Ma (Varangeriano-Siniano Inferior), formaram um cinturão contínuo norte-sul, que denominei de Cinturão Glacial Varangeriano-Siniano Inferior da Rodinia. Nas reconstruções do supercontinente Rodinia, o sul do Brasil fazia parte deste cinturão com depósitos glaciais da mesma idade. 

Outras interpretações

Como, porém, não podia ter certeza absoluta sobre a origem glacial da seqüência de Lavras do Sul, solicitei à Universidade do Vale do Rio dos Sinos (UNISINOS) e Superintendência de Porto Alegre do Serviço Geológico do Brasil (CPRM), para que visitassem o local e emitissem a opinião a respeito. Visitaram o local os geólogos P. Paim e R. da Cunha Lopes. Para eles, a seqüência não representava influência glacial, mas sim, um depósito causado por atividade vulcânica, ou seja, os diamictitos são um depósito de lahar, um fluxo de lama vulcânico e os "dropstones", bombas vulcânicas ejetadas balisticamente em camadas de cinzas durante uma erupção, pertencendo assim à parte pircolástica/vulcano-sedimentar da Formação Hilário, seqüência vulcânica subjacente. 

É verdade que muitos processos sedimentares e vulcano-sedimentares, como os turbiditos, fluxos de lama, lahars e bombas vulcânicas podem gerar depósitos similares aos glaciais. Os fluxos de lama e lahars são comuns nas regiões montanhosas e vulcânicas como Andes, onde a gravidade, chuvas, terremotos ou erupções vulcânicas em topos cobertos de neve ou geleiras, podem provocar eventos catastróficos pela mobilizacao de grandes massas de terra e matacões por liquefação de cinzas vulcânicas ou sedimentos e colúvios, como em Santiago, Chile em 1993 e na erupção do Nevado del Ruiz na Colômbia em 1985. 
Vide: http://vulcan.wr.usgs.gov/Volcanoes/Colombia/Ruiz/description_eruption_lahar_1985.html

Estes processos são capazes de transportar grandes blocos de rochas ou até casas em grande velocidade.

A interpretação da seqüência sem influência glacial é, portanto, possível e discussão semelhante é corriqueira em relação a muitas formações Neoproterozóicos do mundo, como já visto em relação ao norte da Noruega. O que, porém, também é possível, é que a influência glacial pode ter ocorrido em um ambiente vulcânico, a exemplo da Formação Gaskiers da América do Norte, da mesma idade. 

Ainda em 1996, P. Paim contou também sobre suspeitas glaciais ainda não publicadas sobre rochas Neoproterozóico-Cambrianos na Bacia do Itajái, no estado de Santa Catarina. 

De Lavras do Sul a Mäntsälä, Finlândia

As discussões deram mais ímpeto e a intenção era de tentar provar categoricamente, se Lavras do Sul possuía uma formação com influência glacial ou não. Requerí financiamento para apoiar os estudos de doutorado, junto com o geofísico PhD. L. Pesonen da SGF no outono de 1996. O objetivo era também de realizar estudos paleomagnéticos, determinando-se a posição de Lavras do Sul em relação aos pólos há 600 Ma e Rodinia. 

Infelizmente o requerimento de financiamento falhou. Pretendíamos tentar novamente no próximo ano, mas o fracasso deste requerimento foi desestimulante. O meu trabalho no SGF era bastante burocrático e já há algum tempo possuía também um interesse em trabalhar com a geologia Pré-Cambriana da Finlândia. No início de 1997 transferí-me então para o Instituto de Geologia da Universidadade Helsinki após o encerramento do contrato de trabalho na Divisão Internacional do SGF. Iniciei a pesquisa de gabros Svecofennianos na menos exótica região de Mäntsälä, sul da Finlândia. Lavras do Sul ficou no esquecimento, mas não totalmente. Em 1997 tratei do assunto no Gondwana Newsletter, suplemento de três importantes revistas geocientíficas internacionais. Em 1998 publiquei, junto com o prof. M. Eronen, um artigo sobre as glaciações Neoproterozóicas na Tiede 2000, revista finlandesa de popularização de ciência. Em 2000 associei-me ao grupo de trabalho finlandês do IGCP-440 (Assembly and Break-Up of Rodinia), que trata de processos geológicos relacionados à aglutinação e separação do supercontinente Rodinia. O livro já mencionado, "The Ecology of the Cambrian radiation", com um artigo do autor, foi publicado no início de 2001. 

Planos de pesquisa futuros

Ao retornar ao Brasil após a pós-graduação em 2001, o objetivo é o de continuar o projeto interrompido. É preciso publicar um artigo detalhado sobre a seqüência em Lavras do Sul, com uma análise pormenorizada, precedida de trabalho de campo minucioso. Na pesquisa procurará se responder à questäo da existência ou não de depósito com influência glacial em Lavras do Sul e em outras regiões do estado. A continuação da pesquisa nos arredores (Bagé e Caçapava do Sul) é necessário, assim como a comparação destes depósitos às formações de mesma idade na Namíbia, Uruguai e Argentina. A ocorrência de rochas glaciogênicas de ca. 700-750 Ma (Sturtianas) é também possível nas sequências metamorfizadas de Caçapava do Sul, como já suspeita pelo P.R. Bocchi na década de 1970. Necessita-se também de determinações de paleomagnetismo e de geocronologia. Mesmo que não seja encontrado vestígios glaciais Neoproterozóicos em Rio Grande do Sul, é bastante aceita a idéia de que provavelmente todo o globo estava coberto por geleiras. A pergunta que se faz neste caso é porque não em Rio Grande do Sul? De qualquer modo, a pesquisa detalhada de paleoambientes e processos sedimentares em referidas seqüências vulcano-sedimentares Neoproterozóicas-Cambrianas do Rio Grande do Sul é também um desafio interessante por si mesmo e mesmo sem a suspeita de influência glacial. A área é também rico em depósitos minerais e novos depósitos podem ser descobertos desta forma.

A pesquisa da transição Neoproterozóico-Cambriano procura a responder a um dos maiores mistérios da história da Terra: a mudança drástica e rápida de clima polar ao tropical. No Rio Grande do Sul os depósitos Cambrianos são representados pela Formação Guaritas, configurado por um ambiente quente e árido a semi-árido, inclusive com a formação de dunas desérticas. A mudança de um clima polar para tropical ocorreu mundialmente e isto é comprovado também pelos carbonatos que capeiam depósitos glaciais em muitos locais do mundo. Esta rápida mudança climática causou a radiação evolutiva do Cambriano.

Considerações finais e perspectiva da mudança climática atual

A transição Neoproterozóico-Cambriano tem recebido bastante atenção internacional durante os últimos anos. Este é um dos eventos mais extraordinários da história da Terra e a sua pesquisa procura responder a questões importantes como a evolução da vida, movimento das placas continentais e mudanças climáticas do passado. Uma glaciação causa vestígios da sua existência em uma vasta área. Esta é também um evento de tanta importância, que pode ser considerado um marco na história geológica e assim, um elemento de correlação inter-continental. A pesquisa em relação ao Rio Grande do Sul tem também importância do ponto de vista das correlações com a Namíbia. 

O clima tem mudado drasticamente repetidas vezes durante a história geológica de bilhões de anos. Estas mudanças tem sido eventos naturais, nos quais o homem não teve influência alguma, por simples razão de não ter existido então. A última glaciação terminou somente há 10.000 anos e estamos caminhando de rumo à próxima. Durante um período interglacial, como agora, o clima oscila entre mais ameno e mais frio, ciclicamente. Neste momento a temperatura média global está comprovadamente aumentando e ao que parece, devido à ação do homem. Mas não temos certeza absoluta sobre isto. O aumento da temperatura pode ser devido à ciclicidade natural também. Possuímos medições de temperaturas cobrindo um período geologicamente desprezível, cerca de 100 anos somente e temos que ter em mente uma perspectiva maior, oferecida pelo registro geológico. Conforme o pesquisador de climas do passado, o prof. M. Saarnisto do GSF, o homem é apenas um fator a mais no sistema complexo das mudanças climáticas e não conhecemos ainda o efeito e a interação destes agentes. De qualquer modo é positivo que tem se chamado atenção às emissões de CO2 e que está se procurando reduzí-las. Devemos reconhecer que o custo de desconsiderar a influência humana no efeito estufa pode ser demasiadamente alto. 

A informação geológica sobre as alterações climáticas do passado pode ter um papel importante ao se investigar e prever mudanças atuais e futuras. 


Referências para leitura

Bocchi, P.R. 1970 Geologia da Folha de Caçapava do Sul, Rio Grande do Sul. Departamento Nacional de Produção Mineral, Boletim da Divisão de Geologia e Mineralogia, 245, 83 p. 

Cloud, P. 1988 Oasis in the space. Earth history from the beginning. New York, W.W. Norton & Company, 508 s.

Dalziel, I.W.D. 1995 Earth before Pangea. Scientific American, 272 (1): 38-43.

Eerola, T. 1994 Preliminary facies characterization of the Cambrian Guaritas Formation in the Lavras do Sul region, southern Brazil: alluvial fan delta and mud-flows (and/or possible glaciogenic contribution?). Expanded Abstracts, 14th International Sedimentological Congress, IAS, Recife, G 29-30. 

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Toni Eerola, Department of Geology, University of Helsinki, P.O. Box 11, FIN-00014 Helsinki
E-mail: tonieve.eerola@helsinki.fi

O autor é geólogo, tradutor oficial e intérprete, graduado no Instituto de Geociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), em Porto Alegre, Brasil. Neste momento ele atua como pesquisador pós-graduando no Instituto de Geociências da Universidade de Helsinki, Finlândia e é secretário do Grupo de Trabalho Finlandês do IGCP-440 Assembly and Breakup of Rodinia.